BLOG DO PROFESSOR MIGUEL

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FILOSOFIA: PALAVRAS MÁGICAS

FILOSOFIA PENSAR QUESTIONAR RACIOCINAR BOM SENSO DIALÉTICA DERRUBAR BARREIRAS LUZ CAVERNA SOMBRAS TÍTERES MARIONETES INTERROGAR IGNORÂNCIA TREVAS SABEDORIA BUSCA PROCURA CONHECIMENTO RELAÇÃO SUJEITO OBJETO LIBERDADE SABER FILÓSOFO AMIGO SABEDORIA CIENTIFICIDADE ORGANIZAÇÃO AMOR SISTEMATIZAÇÃO ORDENAÇÃO EXPERIÊNCIA EXISTÊNCIA IDÉIAS COMPREENSÃO MENTEPSICOSE AR ÁGUA TERRA UNIVERSO FOGO LUZ TALES PÍTACO DE MITILENE PITÁGORAS PROTÁGORAS GÓRGIAS SÓLON DIÓGENES SÓFOCLES SÓCRATES PLATÃO ARISTÓTELES CLÍSTENES MARCO AURÉLIO AGOSTINHO TOMÁZ DE AQUINO AVERROIS AVICENA MILETO MILÉSIA ATOMISMO ELEÁTICA PITAGÓRICA ANTI-ELEÁTICA JÔNICA PLURALÍSTICA SOFISTA RETÓRICA ARGUMENTAÇÃO CONTRÁRIO SABER DANTE ALGHIERI MAQUIAVEL TOMAS HOBES NEWTON BACON JHON LOCKE JEAN JACQUE ROSSEAU ESPINOSA BERLEY BYERKELY VOLTAIRE SMITH LIBERALISMO SOCIALISMO COMUNISMO DEMOCRACIA INDUSTRIALISMO CAPITALISMO NEOLIBERALISMO EVOLUCIONISMO ESPÉCIES HOMEM KARL MARX ENGELS SPENCER COMTE KANT HEGEL DESCARTES ÓRGANON MUNDO DE SOFIA DIALÉTICA REPÚBLICA NEOPLATONISMO ESCOLÁSTICA ILUMINISMO MATEMÁTICA DIREITO MEDICINA EMPRESA LUCRO ADMINISTRAÇÃO DINHEIRO CONHECIMENTO CAPACIDADE LÍDER FILOSOFIA FILOSAR FILOSANDO FILOSOFEI FILO RIQUEZA VAIDADE IGNORÂNCIA TREVAS IDIOTA LIBERDADE MASSIFICAÇÃO MARIONETE IDEOLOGIA MENTIRA VEREDADE INVERSÃO MARKTING PROPAGANDA CAPITALISMO CONHECIMENTO LIBERDADE SABER CAPACIDADE SUJEIRO OBJETO SER NÃO-SER DEVIR QUESTÃO POTENCIALIDADE LIBERDADE RESPONSABILIDADE DEVER DIREITO ÉTICA MORAL IMORAL BELO ESTÉTICA SOCIEDADE INDIVÍDUO VIVER CONVIVER RELAÇÃO ARTE SABER SABEDORIA HISTÓRIA PERSUAÇÃO GRÉCIA ESCOLAS FUNÇÃO

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O GRUPO DOS 5% NA AULA DE FILOSOFIA

Tínhamos uma aula de Filosofia na Faculdade de Administração logo após o carnaval. Como a maioria dos alunos havia viajado aproveitando o feriado prolongado, todos estavam ansiosos para contar as novidades aos colegas e a excitação era geral. Um velho professor entrou na sala e imediatamente percebeu que iria ter trabalho para conseguir silêncio.

Com grande dose de paciência tentou começar a aula, mas você acha que minha turma correspondeu? Que nada. Com um certo constrangimento, o professor tornou a pedir silêncio educadamente. Não adiantou, ignoramos a solicitação e continuamos firmes na conversa. Foi aí que o velho professor perdeu a paciência e deu a maior bronca que eu já presenciei.

Veja que ele disse:

- Prestem atenção porque eu vou falar isso uma única vez - disse, levantando a voz e um silêncio carregado de culpa se instalou em toda a sala e o professor continuou. - Desde que comecei a lecionar, isso já faz muitos anos, descobri que nós professores, trabalhamos apenas 5% dos alunos de uma turma. Em todos esses anos observei que de cada cem alunos, apenas cinco são realmente aqueles que fazem alguma diferença no futuro; apenas cinco se tornam profissionais brilhantes e contribuem de forma significativa para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Os outros 95% servem apenas para fazer volume; são medíocres e passam pela vida sem deixar nada de útil. O interessante é que esta porcentagem vale para todo o mundo.

Se vocês prestarem atenção notarão que de cem professores, apenas cinco são aqueles que fazem a diferença; de cem garçons, apenas cinco são excelentes; de cem motoristas de táxi, apenas cinco são verdadeiros profissionais; e podemos generalizar ainda mais: de cem pessoas, apenas cinco são verdadeiramente especiais.

É uma pena muito grande não termos como separar estes 5% do resto, pois se isso fosse possível, eu deixaria apenas os alunos especiais nesta sala e colocaria os demais para fora, então teria o silêncio necessário para dar uma boa aula e dormiria tranqüilo sabendo ter investido nos melhores. Mas, infelizmente não há como saber quais de vocês são estes alunos. Só o tempo é capaz de mostrar isso. Portanto, terei de me conformar e tentar dar uma aula para os alunos especiais, apesar da confusão que estará sendo feita pelo resto. Claro que cada um de vocês sempre pode escolher a qual grupo pertencerá. Obrigado pela atenção e vamos à aula de hoje.

Nem preciso dizer o silêncio que ficou na sala e o nível de atenção que o professor conseguiu após aquele discurso. Aliás, a bronca tocou fundo em todos nós, pois minha turma teve um comportamento exemplar em todas as aulas de Fisiologia durante todo o semestre; afinal quem gostaria de espontaneamente ser classificado como fazendo parte do resto? Hoje não me lembro muita coisa das aulas de Filosofia, mas a bronca do professor eu nunca mais esqueci. Para mim, aquele professor foi um dos 5% que fizeram a diferença em minha vida.

De fato, percebi que ele tinha razão e, desde então, tenho feito de tudo para ficar sempre no grupo dos 5%, mas, como ele disse, não há como saber se estamos indo bem ou não; só o tempo dirá a que grupo pertencemos. Contudo, uma coisa é certa: se não tentarmos ser especiais em tudo que fazemos, se não tentarmos fazer tudo o melhor possível, seguramente sobraremos na turma do resto.

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abril

FILOSOFIA COMO UM MODO DE VIDA

1. Há um conjunto de dificuldades que antecedem o estudo da filosofia. A primeira delas diz respeito à própria expressão “introdução à filosofia”, pois, a rigor, não tem sentido ingressar-se ou introduzir-se na filosofia como se a filosofia fosse um recinto, um espaço físico fora do qual nos encontramos e no qual podemos penetrar ou não, dependendo da nossa vontade. Como poderemos compreender melhor depois, do mesmo modo que nunca estamos fora da história, também nunca estamos fora da filosofia, sendo esta apenas a história procurando tomar consciência do seu próprio sentido.

2. Como poderíamos ingressar em um recinto no qual sempre nos encontramos e do qual jamais poderíamos sair? E, no entanto, tudo se passa como se a maioria dos seres humanos vivesse fora da filosofia, em um espaço exterior no qual a filosofia não penetrasse. “A maioria dos homens não reflete sobre o que a eles se apresenta e, mesmo quando instruídos, não compreendem, vivem na aparência” (Heráclito, séc. V a.C.). Em relação ao filósofo, que representa a vigília, a consciência despertada, a maioria das pessoas vive na inconsciência, comparável a um sono constante. E na consciência de que a maior parte dos homens vive na inconsciência, ou melhor, é inconsciente da própria inconsciência, reside a solidão e o sofrimento do filósofo.

3. Não se trata, portanto, de uma introdução ou um ingresso em um recinto, mas de um emergir, um despertar do sono para a vigília, da ignorância para o conhecimento, da inconsciência para a consciência. Todas as pessoas, pelo simples fato de serem humanas, estão sempre na história e, porque são humanas e estão na história, estão também e sempre na filosofia; o que depende de nós é a tomada de consciência de tal situação, pois ninguém pode ser obrigado a pensar, a refletir, a espertar para a consciência. O pensar filosófico é o domínio da liberdade e ninguém pode ser compelido a refletir, a não ser por um ato da própria vontade.

4. A Segunda dificuldade é precisamente esta. A maioria das pessoas não toma consciência de que está na história e conseqüentemente na filosofia. As pessoas normalmente vivem imersas na vida cotidiana, em função de hábitos, rotinas, idéias feitas, reflexos condicionados, etc. Em suma, vivem sem pensar, sonambulicamente, como se a reflexão, o pensamento fossem desnecessários ou supérfluos. Tal situação é expressa no provérbio “primeiro viver, depois filosofar”.

5. Sem dúvida, é possível viver sem filosofia, no sentido próprio da palavra, isto é, sem refletir criticamente sobre a totalidade do mundo e da experiência humana. Os animais também vivem sem pensar. Respiram, movem-se, alimentam-se, procriam, mas não pensam. Quando se fala de vida propriamente humana, não se fala no sentido biológico da vida puramente animal. Ora, se tal é o estatuto ontológico da condição humana, como explicar que, geralmente, as pessoas vivem no plano da vida imediata, irrefletida, inconsciente e não no plano da reflexão, do pensamento, da consciência? Por que não se pensa? A explicação parece estar no fato de que, desde o mundo helenístico-romano, os representantes da filosofia pertenceram à classe dos senhores, daqueles que não precisavam trabalhar para viver, aqueles que dispunham de lazeres suficientes para ler, estudar e refletir. A filosofia tem-se apresentado como uma ocupação dos senhores que, libertos das tarefas inferiores, podem dedicar-se ao trabalho intelectual, às formas superiores da atividade do espírito, à reflexão, ao pensamento.

6. Cabe observar, porém, que além dessa filosofia à qual os homens se mostram indiferentes e à qual chegam mesmo a ser hostis, há uma outra, não explícita na consciência reflexa, mas implícita nas crenças, nas idéias, nos usos e costumes, nas instituições sociais, na linguagem. Em tudo aquilo que o homem diz, em todos os juízos da realidade e de valor que constituem seu discurso cotidiano, profissional, científico, técnico, há uma filosofia implícita. Não há uma problemática específica à filosofia, podendo qualquer tema, assunto ou problema tornar-se filosófico, desde que considerado do ponto de vista da totalidade, da crítica radical.

7. O homem se define pelo pensamento, no sentido de que só o homem é capaz de pensar. Quando dizemos pensar, subentendemos que se trata do pensamento filosófico, que procura pensar a totalidade, ou melhor, que procura pensar todas as coisas em função da totalidade. Ora, nada é mais difícil de fazer do que pensar, nada exige mais esforço e trabalho. O pensamento é o trabalho por excelência, do qual todos os outros dependem, pois a ação plenamente consciente, ou seja, consciente de seus fins e dos meios adequados à realização desses fins pressupõe o pensamento, que deve orientá-la e dirigi-la. E essa ação, para ser plenamente consciente, deve pressupor a consciência da totalidade em que se inscreve e realiza, ou, em outras palavras, a consciência do momento histórico em que se efetiva. E, como a consciência da história é a consciência filosófica, segue-se que a ação plenamente consciente pressupõe a consciência filosófica.

8 Por todos esses motivos, sempre se verificaram atitudes hostis em relação à filosofia. Esta hostilidade se explicaria porque, em relação aos homens que vivem absorvidos pelo cotidiano, a filosofia representa um desafio que se recusam a aceitar. Ora, pelo simples fato de serem humanos, deveriam aceitar o desafio, dispondo-se a pensar, aceitando os riscos implícitos da crítica radical. Contudo, tomar consciência plena de si mesmo, reexaminar sua vida, questionar tudo que tem feito, admitir a possibilidade de condenar a si mesmo, criticar-se com a mesma severidade com que julgaria outra pessoa, passar a viver de outra maneira, reformar sua conduta, são desafios que não seduzem a maioria das pessoas.

9 Em face de todas essas dificuldades, que deve fazer o filósofo? Conformar-se em ser uma exceção? Desinteressar-se pela sorte dos que se desinteressam da filosofia? Isto seria inútil, pois são estes os que governam a cidade, o país, e as decisões que tomam afetam ou podem afetar o filósofo em suas condições de trabalho e de vida. Se a vida do filósofo se torna difícil ou impossível na cidade, único lugar em que pode viver, ele precisará, além do saber, também do poder, pois só o poder lhe permitirá reformar a cidade de acordo com a razão e a justiça. Para poder ser filósofo, precisará também ser político, para eliminar a violência e prosseguir com segurança na procura da sabedoria, condição da felicidade.

10. Como começar e por onde começar? Se todas as pessoas, apesar das dificuldades, podem tornar-se filósofos(as) pelo simples fato de serem humanos, o filósofo deverá ser o principal agente desta conversão, mesmo porque conseguiu conscientizar-se primeiro que os demais. Se a maioria das pessoas permanece indiferente em relação à filosofia, é porque a filosofia permanece indiferente em relação a elas. Ou, em outras palavras, a filosofia não tem sentido algum quando não se desdobrar em política, ética, pedagogia.

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abril

PODER E GOVERNO

“… O homem tem em suas mãos o poder para aniquilar a vida de milhões de pessoas…” (John Kennedy)

 Estar no governo não significa ter poder. O governante governa, mas não tem poder. Este reside nos bancos, na mídia, nos que financiam campanhas, nos investidores internacionais, e naqueles que ditam os rumos do nosso governo.

O governo deveria dispor de mecanismos institucionais para controlar o poder e reduzir a sua capacidade de sabotar a política governamental, e não se deixar controlar por ele, mas isso é tão difícil quanto a realização do sonho de ver, algum dia, nosso país sendo governado por homens honestos.

Infelizmente, somente em regimes ditatoriais, governo e poder coincidem. Hoje, com o neoliberalismo e a globocolonização, o poder mundializou-se, sob o controle das megaempresas. Esse poder dita a pauta dos governos, sobretudo na esfera econômica. Sua força reside no controle do capital, da mídia, da indústria cultural e do potencial bélico.

O poder não quer ser governo, mas o governante quer e precisa emonstra-lo, senão, fica mal com todos que fizeram sua campanha: bancos, mídia, financistas, investidores, etc. Caso contrário, qualquer arrivista poderá, amanhã, chegar ao poder. Essa aparente distância entre poder e governo convém à democracia formal que não se preocupa em tirar da boca de seus magérrimos filhos do sul, para tratar dos obesos e opulentos do norte. Ele fica feliz e não se enciúma ao ver a família de seus manipuladores mais ricas e famosas do que os seus. Basta-lhe a certeza de conduzir tudo à risca, como foi determinado. Tanto faz, se por quatro ou oito anos.

Ser poder seduz e envaidece. Ter poder é outra coisa. Os poderosos preferem não aparecer. Nem sentem necessidade de aplausos e reconhecimento público. São avessos à fama. Plenifica-os o ego saber que decidem a vida de milhões de analfabetos, cada vez mais analfabetos; de milhões de famintos, cada vez mais famintos; de milhões de sem-tetos, que não têm nem segurança para habitarem debaixo das pontes. Agrada aos poderosos ver como a espinha dos governantes verga ao se aproximar deles.

Os poderosos estão acima do bem e do mal, das leis e da justiça. São imunes porque não agem, dão ordens. Jamais sujam as próprias mãos; há quem o faça por eles. E são impunes, não deixam impressões digitais. Em caso de uma jogada equivocada, recolhem-se, mudam seus exércitos de tarefeiros e retornam ao jogo com novos lances de mestres.

Mesmo no crime, os poderosos são elegantes e retóricos. A mistura Smoking e luvas de pelica, são para enganar e esganar. Suas emoções não são mais fortes que as de um jovem exterminando vidas em um cinema como se fosse um garoto brincando de matar num videogame.

O Estado é estruturado por intermédio da violência do mais forte sobre o mais fraco. E esta estrutura é feita de forma a manter o povo fora dela. Como os shopping centers dedetizados para se manterem imunes a mendigos. Na sociedade capitalista, a política é uma coisa pública a serviço, sobretudo, dos interesses privados. Só que os poderosos não dão as caras.. Por isso o povo pressiona o governo, como se ele fosse uma vaca que deveria ter uma teta para cada boca. Quem pressiona o poder? Por que?

Porque ele é invisível, esconde-se em sociedades anônimas: F.M.I., banqueiros internacionais, congressistas aliados ao capital estrangeiro, mídia, etc. O poder é camuflado pelo próprio governo. Os governos passam, o poder permanece. Para ele, a política é a arte de preservar sua hegemonia, através da acumulação do capital, da preponderância simbólica e da força policial; gerando a fome, a pobreza, a miséria, o analfabetismo, a dependência e as desigualdades sociais.

As urnas mudam governos, mas dificilmente ou, talvez, jamais afetará o poder.

(CHRISTO, Carlos Alberto Libânio. Fé e Cidadania: Poder e governo. In Revista Ave Maria. Julho/2001. p. 09). Adaptações: Prof. Miguel A. Teodoro.

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abril

Leia, e nunca mais reclame da vida que você tem…

Mundo virtual

Entrei apressado e com muita fome no restaurante. Escolhi uma mesa bem afastada do movimento, pois queria aproveitar os pouco tempo que dispunha naquele dia atribulado, para comer e consertar alguns bugs de programação de um sistema que estava desenvolvendo, além de planejar minha viagem de férias que a tempos não sei o que são.

Pedi um filé de salmão com alcaparras na manteiga, uma salada e um suco de laranja, afinal de contas fome é fome, mas regime é regime né? Abri meu notebook e levei um susto com aquela voz baixinha atrás de mim: -Tio, dá um trocado?

-Não tenho, menino.

-Só uma moedinha para comprar um pão.

-Está bem, compro um para você.

Para variar, minha caixa de entrada esta lotada de e-mails. Fico distraído vendo poesias, as formatações lindas, dando risadas com as piadas malucas. Ah! Essa música me leva a Londres e a boas lembranças de tempos idos.

-Tio, pede para colocar margarina e queijo também. Percebo que o menino tinha ficado ali.

- Ok. Vou pedir, mas depois me deixe trabalhar, estou muito ocupado, ta? Chega a minha refeição e junto com ela meu constrangimento. Faço o pedido do menino, e o garçom me pergunta se quero que mande o garoto ir embora. Meus resquícios de consciência me impedem de dizer. Digo que esta tudo bem. Deixe-o ficar. Que traga o pão e, mais uma Refeição descente para ele. Então ele sentou á minha frente e perguntou:

-Tio o que está fazendo?

-Estou lendo uns e-mails.

-O que são e-mails?

-São mensagens eletrônicas mandadas por pessoas via Internet (sabia que ele não ia entender nada, mas, a título de livrar-me de maiores questionários disse):

-É como se fosse uma carta, só que via Internet.

-Tio você tem Internet?

-Tenho sim, essencial ao mundo de hoje.

-O que é Internet?

-É um local no computador, onde podemos ver e ouvir muitas coisas, notícias, músicas, conhecer pessoas, ler, escrever, sonhar, trabalhar, aprender. Tem de tudo no mundo virtual.

-E o que é virtual?

Resolvo dar uma explicação simplificada, novamente na certeza que ele pouco vai entender e vai me liberar para comer minha refeição, sem culpas.

-Virtual é um local que imaginamos, algo que não podemos pegar,tocar. É lá que criamos um monte de coisas que gostaríamos de fazer. Criamos nossas fantasias, transformamos o mundo em quase como queríamos que fosse.

-Legal isso. Gostei!

-Mocinho, você entendeu que é virtual?

-Sim, também vivo neste mundo virtual.

-Você tem computador?

-Não, mas meu mundo também é desse jeito… Virtual. Minha mãe fica todo dia fora, só chega muito tarde, quase não a vejo, eu fico cuidando do meu irmão pequeno que vive chorando de fome e eu do água para ele pensar que é sopa, minha irmã mais velha sai todo dia, diz que vai vender o corpo, mas não entendo, pois ela sempre volta com o corpo, meu pai está na cadeia há muito tempo, mas sempre imagino nossa família toda junta em casa, muita comida, muitos brinquedos, de natal e eu indo ao colégio para virar medico um dia. Isso é virtual não é tio?

Fechei meu notebook, não antes que as lágrimas caíssem sobre o teclado. Esperei que o menino terminasse de literalmente "devorar" o prato dele, paguei a conta, e dei o troco para o garoto, que me retribuiu com um dos mais belos e sinceros sorrisos que já recebi na vida e com um "Brigado tio você é legal!".

Ali, naquela instante, tive a maior prova do virtualismo insensato em que vivemos todos os dias, enquanto a realidade cruel rodeia de verdade e fazemos de conta que não percebemos!

Você, agora, tem duas escolhas…

1. Enviar esta mensagem aos amigos e amigas ou

2. Apagá-la, fingindo que não foi por ela tocado.

Como podes ver, eu escolhi a nº 1.

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de
abril

ASSIM É A HITÓRIA…

Disse, certa vez, Chico Buarque:

"A História é um carro aberto, cheio de um povo contente, que atropela, indiferente, todo aquele que a negue. É um trem riscando trilhos… Abrindo novos espaços… Acenando muitos braços… Balançando nossos filhos…"

A análise histórico-crítica que apresento a seguir, é resultado de uma das tantas conferências que já apresentei. Esta, tive a oportunidade de apresentá-la num Seminário que aconteceu em Vassouras - RJ, na Universidade Severino Sombra, em 1999, às vesperas das comemorações dos 500 anos de Brasil. Somente, agora, é que tenho a oportunidade de disponibilizá-la a todos vocês.

Obrigado por sua participação e seus comentários.

Professor Miguel Aparecido Teodoro

7

de
abril

HISTORICIDADE & CRITICIDADE: BRASIL 500 ANOS

INTRODUÇÃO

Ao analisarmos as raízes dos fatos que se nos antecederam e ao trazer à tona os acontecimentos numa visão crítica do passado histórico, percebemos quão falha tem sido nossa historiografia. Tomamos por base neste trabalho alguns elementos da História do Brasil cujo início se dá a partir da chegada dos portugueses, quando em nossas águas baixaram âncora. Suas intenções obedeciam ao sentimento ideológico que os movia. Quais eram seus sentimentos e suas intenções? Que ideologia dominadora estava por traz de tamanhos empreendimentos que em nome de El Rei e da Fé era preciso “salvar essa gente”? Não possuíam outra intenção senão os inescrupulosos objetivos de alcançar os interesses que lhes eram viáveis.

Aquele 22 de abril de 1500 não foi um dia feliz para as comunidades que nessa terra, estranha aos portugueses, viviam segundo suas leis, tradições e costumes. “Eles eram felizes e não sabiam. Plantavam suas roças de milho, inhame e mandioca, cultivavam suas ervas medicinais, eram profundos conhecedores do solo – da Mãe-Terra, caçavam e pescavam com a inocência que lhes eram peculiar. Faziam seus torneios, seus jogos. Davam-se em casamentos e adoravam seus deuses que a mãe natureza lhes proporcionavam”(Verbo Filmes: Ameríndia. 1996). “Eram, em todo o Continente Americano, aproximadamente, 7 milhões de habitantes”. (RIBEIRO: 1997).

Alguns anos antes da chegada dos portugueses, a América espanhola já havia experimentado a boa vontade, as boas intenções e a ternura dos espanhóis ávidos de riquezas, cuja sede era alimentada somente com a presença do vil metal nobre – o ouro. Estávamos no sistema econômico denominado de Mercantilismo e/ou Capitalismo Comercial, fundamentados no Metalismo – acúmulo de metais. Longe de demonstrar sua falta de interesses e afiliados ao mesmo sistema, os portugueses não pretendiam ficar em um degrau que os inferiorizasse em relação aos espanhóis. Por isso, aqui deu-se, após “Alonso Ojeda, Vicente Yánez Pinzon e Diogo de Lepe, o grito a 22 de abril de 1500, pela Armada Cabralina: “Terra a vista!” (VIANA:1961).

E (des) cobriram o nosso mundo. Mas que terra era essa que impressionou o escrivão Caminha e fez com que os portugueses desembarcassem no dia seguinte e se admirassem com aqueles homens de “cor parda, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes e de corpos nus”? (CARTA DE CAMINHA: S/D). “Eram nossos irmãos da tribo tupi que espalhavam-se por todo o litoral” (HERMIDA: 1966). Foram os primeiros a ter contato com os europeus – o homem branco: os pioneiros heróis das caravelas, deuses dos mares, senhores do mundo e detentores das técnicas de navegação e da cultura ibérica (?). A primeira impressão que fica, segundo a historiografia, é que os habitantes que aqui se encontravam não possuíam um modo de vida. Acreditamos ser ela – a historiografia – perfeita?

7

de
abril

FATO OU IMAGINAÇÃO?

Ao vasculharmos os livros ou qualquer outro objeto de pesquisa, buscamos, em nossas investigações, a maior coerência possível com o que nos propusemos estudar e os questionamentos e tantos outros signos surgiram no decorrer de nosso passeio pelas artes e pela literatura histórica. Somente assim, percebemos as verdades embutidas nessas expressões: “Quem lê viaja”; “Oh bendito que semeia livros… livros à mão cheia… E manda o povo pensar!” Eis a questão: pensar. E porque não pensamos? Porque não damos asas ao nosso imaginário? Mas o que é “imaginário?” E, qual é a diferença entre real e imaginário? Para muitos, “Real”, trata-se de moeda brasileira; para outros, aquilo que é relacionado a rei ou realeza; no entanto, o que nos chama a atenção é o fato verdadeiro.

 Assim, a História Real se incumbirá dos fatos verídicos. Na história contemporânea de um povo, tomemos, por exemplo, o povo brasileiro e perguntamos: o que é real? Podemos acreditar em tudo que nos é passado como autêntico? Analisemos o caso da Educação: vemos diariamente através dos meios de comunicação, principalmente a Televisão, propagandas que exaltam ao mais alto cume a Educação em nosso país. Sem sombra nenhuma de dúvidas, ela tem seus méritos. Porém, há a necessidade da “adoção de analfabetos (por intermédio de cartões de crédito), a execução de projetos como o de professores voluntários e o mutirão para recuperação de escolas” (REDE GLOBO DE TELEVISÃO: 1999/00). É uma atitude louvável e até mesmo cristã para quem pode e faz: “Instrumental sentimental”.

Como podemos discernir o que é real e o que é imaginário? Muito simples. Vejam bem: o fato de se conclamar a população, através dos meios de comunicação, para adotar analfabetos, para atuar como professores voluntários e para recuperar escolas por meio de mutirões, mostra-nos a realidade. E qual é a realidade? A realidade é que o Brasil possui ainda muitos analfabetos, é que não há número suficiente de professores e que as escolas estão desabando e estão em petição de miséria. Entretanto, a utilização do sensacionalismo, sobrecarregado de sentimentalismo, nos impede de enxergar essa realidade, ou seja, nos impede de enxergar que os recursos destinados à Educação não estão sendo utilizados corretamente. Dessa forma, o imaginário é aquilo que nos dá a impressão de que a Educação vai muito bem, obrigado. É a exaltação.

Muitos exemplos poderiam ser citados. Veja mais: época da Ditadura Militar no Brasil (1964 – 1985), ano de 1970 – período auge do totalitarismo respaldado no AI-5. Ano de perseguições violentas, de extradições de brasileiros e de uma repressão jamais vista. Ano da Copa do Mundo, dos noventa milhões em ação, dos canarinhos, do Rei Pelé e tudo mais. O país explodia numa só emoção motivado pelo novo ópio do povo – o Futebol. Enquanto isso, “nas masmorras da ditadura, muitos brasileiros eram executados sumariamente, sem direito de defesa” (FREI BETO:1984).

Era a instauração da Pena de Morte de forma legal. Dos brasileiros que foram submetidos à tortura poucos voltaram para apresentar os resultados dessa experiência que fizeram por livre e expontânea opressão. Isto, no maior país cristão do mundo, onde nem mesmo os padres foram perdoados. Mesmo assim, “muitos bispos subiam, de mãos dadas aos carrascos do povo, as rampas do Palácio do Planalto” (FREI BETO op. cit).

Exaltou-se a Copa do Mundo e o Brasil – o que não deixa de ser fato. Mas, o presidente algoz levantava, junto aos pupilos de Zagalo, a Jules Rimet e, ao mesmo tempo, era abençoado. Impressionante! Diria que o imaginário, que é tudo aquilo que alguém ou algum sistema possui, é fantástico e mostra que a vida é um show. É a capacidade de mostrar uma realidade inexistente – fantasiosa – e fazer, ao mesmo tempo, com que as pessoas acreditem. Joseph Göebbels, supervisor dos meios de comunicação do Terceiro Reich, em outras palavras, marqueteiro de Hitler, dizia: “Uma pequena mentira falada cem vezes, torna-se uma grande verdade” (HEIFERMAN & OUTROS:1975), como exemplo podemos citar: “o Brasil não tem inflação”; “A moeda Real, é uma moeda forte”; “Devemos estimular os depósitos na Caderneta de Poupança, pagamos o juro real: 1,2%”.

Enquanto isso, os banqueiros e as financeiras chegam a cobrar 16 a 20% de juros e o Dólar chegou a ultrapassar a barreira dos R$2,00. O imaginário, se mal usado, é isso. Tem a função de tirar do cidadão, sua capacidade de interpretar racionalmente, coerentemente, criticamente. O imaginário faz com que você acredite nos elementos por ele criados. Ele tem esse poder. Utilizam alegorias produzindo uma realidade ilusória. É como o mágico – ambos sobrevivem da mentira que nos faz acreditar na ilusão.

Os exemplos que citamos são simples. Podemos aplicá-los a todos os fatos do passado como: Descobrimentos, Colonizações, Desbravamentos, Guerras, Revoltas, Heróis, Proclamações, Cartas Constitucionais, Comemorações, etc,. E, como os muitos que rolam no nosso cotidiano: CPI’s, Assistência Saúde, Política, Impeachement’s, Caras-pintadas, Sociais, Transportes, Habitação, Energia, Privatização, Economia, etc,. A História Real e a História Imaginária são, em si, imanentes e sua práxis é exigente.

Assim, o cidadão, no tempo próprio de sua maturação, deve aprender a discernir entre real e imaginário, certo e errado, falso e autêntico, mentiroso e verdadeiro, fausto e miserando. De um lado, o presente trabalho representa uma síntese da história do Brasil por ocasião da passagem dos “Quinhentos Anos de Descobrimento”. De outro, chamamos a atenção para o título “Um capítulo especial”, onde permeia a gênese de nosso objetivo como investigador.

7

de
abril

TREZENTOS ANOS DE COLONIZAÇÃO?

“Quando os portugueses aqui chegaram, eles tinham nas mãos a Bíblia e nós possuíamos a terra. Hoje, nós temos a Bíblia e eles possuem a terra. ‘…Ao rezarem a Primeira Missa, fincaram nesse solo uma grande cruz, e nela crucificaram toda uma nação’.” (LUNA:1968)

Eis os primórdios de nossa história. No estanco e através do escambo, os europeus ocuparam-se, de início, do desmatamento dessa primitiva terra. Aos primeiros contatos com as nações aqui existentes, o “genocídio e o etnocídio” (RIBEIRO op. cit), tornar-se-iam uma práxis ímpar, marca indelével do absolutismo português e do heroísmo dos desbravadores, convidados a ocuparem seus lugares nas festividades de quinhentos anos de aniversário dos filhos deste solo, mãe gentil. Pátria amada, Brasil.

Sob a égide do primeiro apóstolo, a história testemunha o extermínio de crianças, jovens e velhos, não importando o sexo: “Com esse tipo de gente, somente o tratamento a base de espada, vara de ferro e fogo” (CARVALHO: 1999) – que falta nos fez um Las Casas! Mas os primeiros explorados não se renderam aos ditos colonizadores. Resistiram segundo suas leis, seus costumes e suas táticas de guerra. Contudo, arcos e flechas não superam canhões, espadas e cavalos. Armas desconhecidas pelos habitantes dessa terra desconhecida e desabitada para os europeus, verdadeira terra de ninguém. E, em menos de um século, um milhão de nativos foram dizimados, média que permaneceu até o século XVIII.

Os portugueses usaram vários artifícios para se imporem e se fixarem nesta terra: assassinato, expulsão, escravização, dominação e divisão da terra em Capitanias. Entretanto, esses métodos não obtiveram êxito porque as nações indígenas eram resistentes e nem todos os portugueses admiravam o trabalho de sulcar a terra que ganharam de El Rei. Através do “Regimento de Almeirim, criaram, então, os Governos Gerais” (VIANA op. cit), destacando-se os três primeiros, respectivamente com as fundações: de Salvador, do Colégio São Paulo, que deu origem à cidade com o mesmo nome, e do Rio de Janeiro. O Terceiro Governo, o de Mem de Sá, prazerosamente, diminuía o número de nativos por meio da santa crueldade e da divina barbaridade, fossem os donos da terra rivais ou não. “Em menos de noventa dias, no ano de 1562, tombam cerca de 30 mil índios” (LUNA op. cit). Antes de findar este Governo Geral, mais de “80 mil provam o aço dos alfanjes de seus algozes” (CARVALHO op. cit) – os portugueses, primeiros colonizadores. “O próprio Anchieta assustava-se de tanto que gastava essa gente a ferro e fogo” (CARVALHO op. cit). Na proporção do holocausto, ocorria a substituição do nativo pelo negro que não trouxera da África sorte melhor – este é o Brasil que precisa ser (re)descoberto. E o século XVI registra, no seu último quartel, a anexação das terras pertencentes aos portugueses ao reino espanhol de Filipe II. “Portugal: o herdei, o comprei e o conquistei” (MELLO &COSTA: 1993) . É a União Ibérica.

Colonizar era preciso. E, o europeu julgava-se igual a Deus. Sentia-se dono da vida. Senhor de tudo e de todos. “A barbárie de seus crimes não limitou-se somente aos nativos, estendeu-se também aos negros” (LUNA:1976). Os negreiros e tumbeiros, respectivamente profissionais do tráfico e meio de transporte utilizado para o tráfico, até a primeira metade do século XIX, introduziram no Brasil uma quantidade de elementos da raça negra, “superior à população do ES” (TEODORO:1993), na atualidade. Enfim, todos se tornaram brasileiros, feridos na sua dignidade e suprimidos daquilo que diferencia o homem dos animais: a liberdade de ser, pensar e agir. Tornaram-se tudo mais que se originou da fusão das três raças: caboclos e/ou mamelucos, mulatos e cafuzos. Século dos quilombos, “do Bandeirismo: prospector, apresador, sertanismo de contrato e das monções” (TAUNAY:1924/1950); das reduções e missões; de Amador Bueno e de Beckman; de Zumbi dos Palmares – autêntico herói brasileiro, não reconhecido pela história. O grito dos quilombos clamou por liberdade e “o negro entoou seu canto de revolta pelos ares, refugiando-se no Quilombo dos Palmares” (PINHEIRO&DUARTE: 1976).

Mas o do ouro gritou mais forte e a liberdade, mais uma vez, foi suprimida. Intensificou-se a opressão da forma mais cruel: Beckman é enforcado. “Zumbi é morto e decapitado” (ENNES: 1938).

Em razão da descoberta do ouro – o grande sonho português desde 1500, narrado no primeiro documento histórico-geográfico do Brasil, vide à Carta de Caminha – o século XVIII, é marcado pela propagação das Luzes, trazendo consigo a herança nativista e a corrida do metal nobre do século anterior. Torna-se profundamente transformador, mas não menos violento. Aliás, a violência é uma característica própria da protopatia européia enraizada em solo brasileiro – os primeiros apóstolos, Anchieta, Cardim e Nóbrega, não são esquecidos pelos seus seguidores. Vieira respalda as pregações de seus antecessores. Mas, as atenções voltam-se para a região denominada Minas Gerais e Felipe dos Santos torna-se a primeira grande vítima: “julgado sumariamente”, não se satisfizeram em enforcá-lo. Esquartejaram-no da forma mais horrenda e cruenta possível, em nome da santa coroa de El Rei. A palavra piedade era inexistente nos dicionários portugueses – se é que existia. “As casas de fundição, o quinto, a capitação, os impostos sobre mercadorias, ferramentas, animais e demais profissões, juntamente com a derrama” (VIANA op. cit), marcaram a opulência da nobreza portuguesa e da Igreja no “Barroco Mineiro”, às custas dos miserandos da terra onde emanava leite e mel. “Na ânsia de matar a fome, saciavam-na com fumo e cachaça” (ANTONIL 1964).

É o século da grandeza e miséria do ouro, do Quilombo de Campo Grande, do Rei Ambrózio, da evolução do pensamento influenciando a Independência das Treze Colônias norte-americanas e partejando ideais separativistas, inolvidados pela história, na figura da Inconfidência Mineira – fábrica de mitos e heróis e movimento apenas ideológico não marcado pela ação – e na influência da Revolução Francesa sobre a Conjuração Baiana, que de fato ocorreu – no pensamento e na ação - cujos heróis sequer despertaram a atenção da historiografia manipulada, no século seguinte, pela casta sequitária enquistada no poder.

7

de
abril

O INCRIVEL SÉCULO XVIII

Diversas foram as correntes humanas transplantadas para o Brasil desde os primórdios de sua história. A cultura trazida pelos europeus, e aqui reelaborada, reflete, de certo modo, uma determinada heterogeneidade, sobretudo por parte da corrente humana-portuguesa cujo encontro com os aborígenes da Ilha de Vera Cruz ocasionou um choque cultural violento, pois, os habitantes de Vera Cruz, “viviam no regime de comunidade primitiva, em organização tribal” (RIBEIRO op. cit).

Desse choque cultural “decorreu um processo que a Sociologia e a Antropologia batizaram-no e consagraram-no como ‘aculturação’. Neste sentido, a ideologia da ‘Fé, da Lei e do Rei’” (VILLALTA: 1997) nos acompanharão nesta caminhada e dificilmente tornar-se-ão passado. No entanto, somos obrigados a discordar do eurocentrista Gandavo , cuja visão legou-nos um reflexo educacional concretizado na europeização de um passado ainda presente. “Os primitivos habitantes da Caesalpina Echibata, a Terra Brazilis, aqui viviam segundo suas leis, sua fé, seus costumes. Plantavam, colhiam, caçavam e pescavam e, em todas as atividades exercidas, um ritual segundo seus costumes fazia-se presente” (FERNANDES: 1949).

É claro que seria imprudência, de nossa parte, afirmarmos que eram alfabetizados e, se assim procedêssemos, nossa exposição, com certeza, se fundamentaria no que se opõe à verdade, o que não seria lícito. Assim, os que aqui cometeram barbaridades, julgaram os primitivos habitantes de “Bárbaros” (RUFFIN:1990), deslocaram ou estenderam a pecha dos indígenas para outros sujeitos históricos e, com isso, legitimaram a continuidade de seus barbarismos colonizadores, em nome de um Rei com interesses temporais, de uma Fé expansionista como foi a da Contra-Reforma e de um conjunto de Leis, resultantes de um misto de normas jurídicas fixadas pelo Estado e pela Igreja que entre si se irmanavam.

Mas a Fé, a Lei e os que aqui chegaram em nome de El-Rei experimentaram a resistência dos primitivos habitantes, primeiros analfabetos e foras da lei, primeiros brasileiros. “… Gandavo, escreveu que os índios do litoral brasileiro não tinham as letras “F, nem L, nem R”, não possuindo “Fé, nem Lei, nem Rei” e vivendo desordenadamente” (VILLALTA op. cit).

 Os exemplos edificantes aplicados pelos transplantados metropolitanos aos povos da “Terra à vista”, sob a égide do terrorismo e com propósito disfarçadamente pedagógico em nome da Fé, da Lei e do Rei, com certeza inspiraram Gandavo, e a metodologia do aprender-fazendo, adquiriu os rudimentos necessários para garantir a subsistência daquela sociedade que se formava num misto de sangue, suor e lágrimas. E para substituir as palavras proclamadas pela Fé de Anchieta, “Com essa gente, somente o tratamento a ferro, fogo e espada” (CARVALHO op. cit), a colonização toma os rumos traçados pela corrente cultural-humano-dominadora dos alfanges portugueses. E, os primitivos, por livre e espontânea opressão, se vêem na obrigação de acrescentar ao seu alfabeto as letras “F, L e R”.

“A língua portuguesa percorreu um longo caminho, rumo ao êxtase e à glória e nenhum obstáculo se atreveu a impedi-la, nem mesmo as 340 línguas indígenas do Brasil. Estrategicamente, indianizaram-se e manipularam a diversidade linguística indígena ao mesmo tempo que as conheciam” (VILLALTA op. cit).

Como uma bactéria destrutiva, enquistaram-se no seio das gigantescas comunidades aqui existentes, aniquilando-as em todos os sentidos. Como destaques, citamos: “no litoral paulista, João Ramalho e o Bacharel de Cananéia; na Bahia, o Caramuru; no Maranhão, Martins Soares Moreno e Jerônimo de Albuquerque; o sertanista de contrato, Domingos Jorge Velho” (VIANA op. cit); e, não podemos esquecer de “Anchieta, no litoral do Espírito Santo” (ANCHIETA:1933). Nesse ínterim, os primitivos já não eram tão primitivos assim. Aportuguesados e espanholados pelo mestiçamento, tornaram-se bilíngues. Aliás, no mundo mercantilista, quem não falasse mais de uma língua tornar-se-ia vítima do sistema cujos objetivos obrigava à importação tanto de elementos humanos quanto de materiais.

Era uma verdadeira empresa que em nome da Fé, da Lei e do Rei, explorava o trabalho de uma população abundante, porém, inculta nas palavras de Gandavo.

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