7
de
abril
INTODUÇÃO À FILOSOFIA E ÉTICA… (continuação
25. A terceira e última grande subdivisão da filosofia é a ética, ou teoria dos valores; o seu objetivo consiste no exame crítico e racional do pensamento acerca do modo como nos conduzimos na vida. A ação, em contraste com o comportamento, é entendida como o produto de uma escolha; a comparação entre diversas alternativas é empreendida à luz do seu caráter desejável, das suas conseqüências ou da possibilidade ou facilidade de as efetuar. Na ação encontram-se, assim, envolvidos dois tipos de crenças: crenças factuais acerca do que está em causa ao agir de determinada maneira e quais os seus resultados, e crenças a respeito do valor desses resultados ou ausência de valor do que é necessário fazer para os assegurar.
26. De fato, na ética posterior aos gregos, o tipo de ação que monopolizou a atenção foi a ação moral estritamente concebida. Eis, provavelmente, um resultado do entusiasmo religioso. O cristianismo iniciou-se como uma religião milenarista, indiferente aos assuntos mundanos e preocupada com a salvação, em parte porque estava convencido da falta de valor do mundo e da carne, mas, principalmente, devido à crença no fim do mundo. Qualquer que seja a causa desta concepção estrita, ela provocou um efeito de distorção. Em princípio, a ética deveria interessar-se pelos diferentes gêneros de conduta deliberada e refletida: a conduta prudencial e de interesse próprio com vista, respectivamente, à mínima perda e ao ganho máximo para o agente, a conduta técnica eficiente, a conduta econômica, a conduta saudável, etc. O bem moral e a retidão são apenas tipos particulares de retidão. A lógica e a epistemologia, na medida em que se ocupam em distinguir o certo do errado no plano do raciocínio, podem ser descritas, não por liberdade metafórica, como éticas da inferência e da crença.
27. A influência da religião na moral fez esta última ser considerada os mandamentos de Deus à humanidade. Dado que esta situação conduziu a problemas de autentificação e de interpretação, a voz de Deus internalizou-se, quer como uma espécie de sentido moral sob cuja influência a qualidade moral das ações e o caráter do agente são apreendidos, quer como razão moral manifesta na apreensão da necessidade auto-evidente dos princípios morais. São duas as assunções que podemos questionar a propósito destes tipos de intuicionismo. A primeira é a de que as características morais são sui generis, sem relação lógica com as características naturais ou percepcionáveis dos agentes e das suas ações. A segunda é a de que as ações, ou certos tipos de ação está intrinsecamente certo ou errado, quaisquer que sejam as suas conseqüências, reais ou esperadas. Estas características, se realmente distintivas da moralidade, torna-la-iam diferente dos restantes modos de ação.
28. Os utilitaristas rejeitam ambas as assunções. Derivam a retidão ou a não retidão das ações da bondade ou malignidade das suas conseqüências e, de forma plausível, das conseqüências que é razoável para o agente esperar, de preferência às conseqüências de fato resultantes. Em segundo lugar, consideram que o bem coincide com a felicidade e o prazer ou, mais exatamente, que reside na felicidade geral, na felicidade do maior número de indivíduos. Formulada negativamente, a doutrina utilitarista coincide com o sentimento moral irrefletido: uma ação é má se implica o prejuízo de outros e é permissível caso esse prejuízo não se verifique; moralmente, uma ação merece ser creditada se alivia ou previne o sofrimento alheio.
29. Apesar das diferenças que os separam, intuicionistas e utilitaristas estão de acordo quanto à existência de verdades morais objetivas. A magnitude e intensidade das disputas morais fortalecem o cepticismo, segundo o qual os juízos morais são apenas manifestações dos nossos gostos e repulsas e as disputas morais o resultado da colisão de sentimentos que não podem ser resolvidas através de meios racionais. A questão fundamental em ética, concebida simplesmente como filosofia moral, é a de saber se as nossas convicções morais possuem validade objetiva e, em caso afirmativo, de que tipo. Serão, como pretendem os intuicionistas, convicções de um tipo especial, ou mantêm ligações lógicas com o conjunto das nossas crenças? Será que as propriedades morais são intrínsecas à ação ou apenas dependem das suas conseqüências? Em que consiste o bem e a virtude moral? Será uma disposição para praticar ações retas ou, de forma mais estrita, a disposição para praticar ações retas porque são retas? Em que condições um agente merece ser censurado (ou elogiado) em conseqüência de ações praticadas? Será que a responsabilidade pressupõe a liberdade da vontade, no sentido em que as que as escolhas livres não são causalmente influenciadas?
30. Outras duas formas estabelecidas da teoria dos valores são a filosofia política e a estética. A filosofia política é uma extensão da ética para o domínio das instituições sociais e, tal como a ética em geral, parece excessivamente moralizada. O problema fundamental da filosofia política é a base da obrigação dos cidadãos em obedecer ao estado e às suas leis e, visto do outro ângulo, o do estado em compelir os cidadãos a obedecer-lhe. (Seria interessante investigar em que consiste o que torna mais razoável para os cidadãos obedecerem.) Será que a obrigação de obedecer depende do conteúdo das leis ou da forma como o estado é formado e mantido? Será que os seres humanos possuem direitos que limitam a esfera de atuação do estado?
31. O valor estético é reconhecido como independente dos valores morais, apesar da ocorrência de elementos morais na crítica – por vezes relevantemente, outras de forma intrometida. A palavra "beleza" não o indica satisfatoriamente. Outras línguas conseguem fazer melhor. "Beau" e "schön" significam a propriedade dos objetos artísticos ou naturais que merecem ser contemplados por direito próprio, independentemente de considerações a respeito da sua eventual utilidade ou da informação que podemos obter pelo fato de os estudarmos.
32. As partes estabelecidas da filosofia foram já mencionadas, mas não existem limites evidentes para o seu campo de aplicação. Sempre que nos deparamos com uma idéia cujo significado é de algum modo indeterminado ou controverso, se os enunciados onde ocorre parecem dificilmente sustentáveis ou mantêm com outras crenças comparativamente mais claras relações lógicas obscuras, deparamo-nos ainda com uma oportunidade para refletir filosoficamente.

